Falar de Dinheiro é Falta de Amor?
16/10/2012

Hoje darei início a publicação de entrevistas que realizei com um variado grupo de mulheres onde elas contam um pouco sobre sua relação com dinheiro, patrimônio e carreira.

Vamos começar com a entrevista da Cássia que tem 49 anos, é economista, mãe de 3 mulheres. (O nome foi trocado à seu pedido).

 

D: Quando e como você começou a trabalhar?

C: Aos 18 anos quando briguei com minha família e sai de casa. Empenhei algumas jóias que tinha e fui ser secretaria de um ministro em Brasilia. Gastava pouco pois estudava na UNB que é grátis e morava no dormitório da faculdade. A partir daí sempre me banquei.

D: Em que você gastou a maior parte do dinheiro que você ganhou na vida?

C: Com certeza gastei na criação e educação de minhas 3 filhas. Elas nasceram quando eu tinha 19 , 21 e 23 anos, fui sempre trabalhando mas o dinheiro não dava para muito, pois as meninas custavam caro: melhores escolas, atividades, alimentação, etc.

Por muito tempo o dinheiro não era suficiente para tudo, entao por 5-6 dias no final do mês, eu me alimentava de chá com bolacha somente, para sobrar pra elas. Sempre morei de aluguel e sempre busquei trabalho com intuito de ganhar um pouco a mais.

Aos 41 anos comprei meu primeiro apto financiado em 20 anos, mas consegui quitar em apenas 7 anos. Aí vendi e comprei minha casa atual.

D: E seus maridos, como foi a divisão e a ajuda com dinheiro?

C: Eu sempre ganhei mais que eles. Fui casada 3 vezes. Com meu primeiro marido fiquei casada 5 anos e tivemos as 3 meninas. Não tínhamos patrimônio. Ele também nunca ajudou financeiramente.

Com meu segundo marido compramos um apartamento financiado, que no divorcio ficou com ele, pois ele disse que não sairia da casa de jeito nenhum. Isto apesar de eu ter pago sempre o financiamento sozinha. Na época decidi não brigar, também porque a divida era muito alta, resolvi deixar pra ele.

Com meu atual marido, comprei o apto quando não estava casada. O vendi para comprarmos nossa atual casa com este dinheiro. Mas como já estava casada na data da compra da casa, a casa é dos 2, mesmo eu tendo pago sozinha.

D: E isto te preocupa?

C: Penso nisto todos os dias. Inclusive porque ele tem filhas do antigo casamento que tenho certeza vão querer os 50% se caso aconteça algo com ele. Mas apesar de me importar muito nunca falei com  ele seriamente sobre isto.

D: E porque não enfrentar esta conversa? Inclusive não é justo com as tuas filhas e com você, não é?

C: É verdade. Não sei ainda como arrumar um jeito de conversar que não estrague o relacionamento. As vezes em que toquei no assunto ele argumentou dizendo que ele ganhava menos e que pagava algumas coisas das despesas do dia a dia, entao acha justo que fique com 50%.

D: E vc acha justo?

C: Eu não acho de jeito nenhum. Ele mede o esforço que ele faz em pagar contas porque diz que ganha menos do que eu. Mas não mede o valor do patrimônio. Mas eu tenho medo de ser considerada “dinheirista”, “carrerista”, materialista e que penso mais em dinheiro do que em amor.

D: Você tem dinheiro guardado?

C: Nunca consegui guardar dinheiro. Agora que minhas filhas estão grandes e se bancam, eu faço um esporte caro, que eu adoro e não quero abrir mão. Então o dinheiro vai ai. Eu quero me compensar pelo passado muito duro que tive.

D: Você faz conta? Sabe exatamente quanto ganha e quanto gasta? E onde?

C: Sei exatamente.

D: Quem vai te prover uma velhice tranqüila?

C: Eu confio na vida. Acho que sempre vou conseguir ganhar para viver. Tenho uma previdência privada que me daria 6 mil/mês, vindo da empresa onde trabalhei, mas que não são suficientes. Posso dar aulas quando estiver mais velha. Acho que posso trabalhar ate os 70 anos. Minhas filhas não contam comigo, mas meu marido conta com meu dinheiro na velhice.

D: O que você ensinou sobre dinheiro para tuas filhas?

C: Nunca ensinei nada formalmente, mas sempre disse que as pessoas tem que saber viver com o tanto que possuem. Quando era jovem eu gastava mais do que tinha, me endividava toda. Sai desta. Fiz terapia e aprendi a não ser vitima. Fui muito displicente com este tema, mas a partir dos 40 anos eu me cuidei. Pensar na velhice me ajudou a focar.

D: O que você teria feito diferente, se pudesse, com o que sabe hoje?

C: Acho que nada. Sempre pensei em ter casa própria e com isto quando comprei fiquei mais tranqüila. Não preciso acumular bens

D: Você já fez trabalho de aconselhamento financeiro?

C: Não. As vezes pergunto ao meu irmão onde investir. Administro os custos e não as entradas, e não tenho nenhum excedente.

D: Como é a relação da tua família com o dinheiro?

C: meus pais estão bem, meus irmãos também. Eles tem os problemas deles de saúde e casamentos com questões, mas quem não tem, não é?

D: Que história! Bom Cássia, muito obrigada pela entrevista, gostei muito de te ouvir e obrigada pela confiança em  contar tua história.

C: Adorei falar sobre estes temas, nunca tive ninguém para me abrir, sinto uma grande energia positiva, pelo fato de olhar a minha vida financeira de frente. Muito obrigada por me ouvir, e pela oportunidade de reflexão!

 

Depois de nossa conversa com a Cássia tive algumas reflexões, vejam que interessante:

Cássia tem uma grande dificuldade em se colocar quando o assunto é dinheiro e patrimônio. Mesmo estando visivelmente incomodada com a ameaça de perder parte de seu único patrimônio (sua casa) numa eventualidade que aconteça com o marido, Cássia não consegue abrir o dialogo por medo de ser vista como materialista e pouco amorosa.

Vejo inúmeros casos de mulheres que acabam por perder o que conseguiram poupar durante a vida, por não se colocar. Normalmente numa situação de conflito ou de dificuldade em se comunicar, preferem perder o dinheiro ou patrimônio a ter que brigar. Falar dinheiro é também falar de amor. De amor próprio e amor pelo que construiu e deseja conservar até então. Abrir este diálogo com o parceiro ou parceira, significa um olhar amoroso em relação ao que os dois tem e querem deixar para os filhos. Tem a ver com o cuidado mútuo dos bens e patrimônios, que garantem um bem estar pessoal e da família.

A prevenção é sempre o melhor remédio: uma conversa tranqüila, aberta mostrando que é um espaço de confiança maior que se está criando entre o casal. Porém aconselho um acordo por escrito registrado em cartório sobre o que se decidiu, pois é a única maneira de se precaver, e normalmente o pior que pode acontece (sem ser pessimista), acaba acontecendo.

Para aquelas que quiserem, estou colocando em anexo, uma minuta de relação estável onde cada um dos conjuges protege seu patrimônio. Pode ser um bom início para conversa, obviamente cada um pode acrescentar e personalizar com outros acordos feitos. É importante saber que esta minuta, para ter validade, tem que ser registrada em cartório, ok?  [Minuta União estável]

Tudo para as filhas. Dar aos filhos é sempre a prioridade número um. Mesmo quando sobra só chá com bolacha pra gente, os filhos tem de tudo. Porém o ideal é cuidar das finanças antes de ter os filhos, e também ser equilibrado no momento das escolhas. Passar 4 dias do mês a chá com bolacha, não me parece razoável, não acham?

So aos 40 anos. Mesmo sendo economista com uma formação teórica muito boa sobre finanças, Cássia não conseguiu cuidar da própria vida financeira, gastava muito mais do que podia, e só pode pensar no assunto e equilibrar as contas quando sentiu a idade batendo a porta.

Como seria tudo mais fácil se tivesse começado muito antes. Por outro lado nunca é tarde, coloque como meta começar já, e gastar uma hora por semana neste tema. Procure uma rede de apoio, e se possível ajuda profissional. Essas decisões pagam dividendos à longo prazo.

É um ato de coragem sair de casa muito jovem, não depender da família e não fazer parceria financeira com os maridos. Porém o peso a se carregar sozinha é muito grande e não significa que você é mais fraca ou menos responsável. Nós mulheres temos que aprender a dividir a responsabilidade dos gastos, e não só os ganhos. Ter alguém com quem compartilhar, falar do tema, e ajudar a raciocinar em relação ao que fazer e o que não fazer com o dinheiro, ajuda a diminuir o peso da responsabilidade e aumenta a possibilidade acertar nas escolhas.

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Sobre Denise Damiani

Ter crescido em uma família com muitos homens, e optado por uma carreira predominantemente masculina, fizeram com que Denise Damiani notasse a falta da presença e da visão feminina no mundo dos negócios. Passou então, a desenvolver planos e pôr em ação práticas para diminuir o abismo de gêneros no ambiente corporativo, desenvolvendo programas e implantando projetos para ajudar a nova geração de mulheres a chegar ao topo.

Denise Damiani é executiva na área de business e tecnologia, com formação em engenharia de sistemas digitais pela Escola Politecnica, MBA HBS Executive Program e IMD Executive Program.

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